O Brasil é líder absoluto do ranking de cirurgia plástica entre adolescentes. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), nos últimos 10 anos houve um aumento de 141% no número de procedimentos entre jovens de 13 a 18 anos.
 
Só em 2016 (quando o último censo foi realizado), foram feitas 97 mil cirurgias nesse público, o que equivale a 6,6% do total de plásticas estéticas ou reparadoras realizadas naquele ano (1.472.435).
 
Apesar de o implante de silicone ser a cirurgia mais procurada mundialmente entre as mulheres, esse procedimento fica em segundo lugar quando se trata do público adolescente. A plástica mais procurada por eles é a rinoplastia, que somou 70.800 procedimentos em 2017, em todo o mundo (contra 44.600 cirurgias de aumento de mamas).
 
Até aí, tudo dentro do “esperado”. Afinal, os adolescentes são constantemente confrontados por questões relacionadas à identidade e aceitação em qualquer parte do mundo e a cirurgia plástica pode, em muitos casos, ajudar a recuperar a autoestima deles (desde que cada caso seja analisado cuidadosamente, a fundo).
 
Mas…
 
Sempre há um “entretanto”, e eu preciso falar sobre um dado da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética que, em seu mais recente censo, com dados de 2017, revelou que tem crescido o interesse desse público (das meninas, mais especificamente) por cirurgias íntimas, especialmente a labioplastia, que consiste na remoção de pele dos lábios vaginais para correção estética.
 
Pra vocês terem uma ideia, entre 2015 e 2016, o sistema público de saúde britânico registrou 150 pedidos de labioplastia por meninas com menos de 15 anos de idade. Parece um número pequeno, mas a verdade é que não deveria haver nenhum!
 
Tanto que um membro da Sociedade Britânica de Pediatria e Ginecologia Adolescente contou que a operação não era necessária em nenhum dos casos que presenciou e que as meninas aparecem com comentários do tipo “eu apenas a odeio e quero que seja removida”.
 
É muito triste que uma garota se sinta assim sobre qualquer parte de seu corpo, especialmente uma tão íntima! E é preocupante também porque a fase de crescimento como um todo só termina aos 20 anos.
 
Por mais que as partes íntimas femininas amadureçam em torno de três anos após a primeira menstruação, o corpo continua passando por mudanças muito importantes.
 
Precisamos compreender as peculiaridades desta fase da vida. Entre os 12 e os 18 anos – período que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) define como adolescência, nossos corpos estão em plena transformação. A modificação de estruturas corporais que ainda não estão prontas, portanto, é sempre uma situação delicada.
 
Outra característica relevante dessa faixa etária é a imaturidade, aliada ao verdadeiro turbilhão de emoções provocadas pela bomba de hormônios que recebemos nessa época. Isso significa que essa moçada apresenta bem menos recursos emocionais do que um adulto para lidar com questões psíquicas muito importantes que a realização de uma plástica envolve.
 
Não, eu não sou um radical que é contra toda e qualquer intervenção estética nos jovens. Muito pelo contrário! Como eu disse, a cirurgia plástica, em muitos casos, é uma boa aliada de um desenvolvimento saudável, pois liberta o paciente de certos traços físicos que podem trazer prejuízos emocionais de difícil cicatrização.
 
Mas não podemos nos esquecer de que a boa medida, como sempre, é a do bom senso e a do equilíbrio e que a segurança deve sempre ser a maior prioridade.
 
Sabemos que a adolescência é mesmo uma fase marcada pela ‘competição’, pela beleza e pela busca incessante pela “perfeição”. Mas, por outro lado, o jovem é um ser com anseios e desejos próprios, com autonomia e individualidade que devem, sim, ser respeitadas.
 
A avaliação sobre a pertinência de um procedimento, portanto, será sempre uma decisão ponderada em conjunto por médico, família e paciente. E, mais uma vez: tendo a segurança como a voz mais alta dessa discussão.